Bombardeio contra Serafim
Ipojuca // Dos dez vereadores do município, seis abrem fogo contra a gestão municipal
Fonte: Diário de Pernambuco – 6 de dezembro de 2009
Ipojuca é peculiar no campo político. No centro dos grandes projetos industriais no estado, foi uma das poucas cidades pernambucanas em que os vereadores vitoriosos, em 2008, eram aliados do prefeito eleito. No caso, Pedro Serafim (PDT). A vitória esmagadora nas urnas e a unanimidade eleitoral em torno da segunda gestão do pedetista se transformou em motivo de festa para o governo. E passou a preocupar os opositores, por temerem pouca fiscalização. Quase um ano depois da posse de Serafim, a relação entre o Executivo e o Legislativo dá sinais de que mudou. Dos dez parlamentares, seis questionam, em público, os resultados do governo. Embora neguem rompimento com o Executivo, os vereadores insatisfeitos têm sido impiedosos nas críticas à gestão municipal. "Verdade precisa ser dita: esse segundo governo não fez ações novas. Nada de novo saiu do papel ", afirmou o presidente da Câmara, Odimeres José da Silva, o "Nen Batatinha". Apesar dos questionamentos, "Nen Batatinha",curiosamente da mesma legenda do prefeito, afirma que a Câmara cumpre a função constitucional ao fiscalizar os passos do Executivo. As cobranças, por enquanto, estão sendo feitas aos secretários municipais, mas alguns parlamentares já falam em convocar o próprio Pedro Serafim para dar explicações.
Dos 14 secretários, seis já estiveram no plenário do Legislativo. Os demais devem ser ouvidos até o dia 17. Os questionamentos nem sempre foram amistosos. As pastas da Saúde e da Infraestrutura foram bombardeadas. "Cansamos de mandar requerimentos ao governo e receber respostas negativas, de que tudo está sendo estudado" pontuou Fernando Antônio de Oliveira (PSL). As críticas recaíram duplamente sobre o prefeito, na semana passada, ao se convocar a secretária de Assistência Social, Debora Souza. Filha de Pedro Serafim, ela foi questionada, durante cerca de uma hora, sobre a implantação de políticas públicas e a ampliação de programas de combate à fome, como a distribuição de cestas básicas. No meio do fogo cruzado,Debora afirmou que sua convocação era salutar e ajudava na transparência do governo.
O nível de transparência do governo seria outra razão para se convocar os secretários. "Até agora não chegou o úiltimo balancete trimestral do município. Estamos pedindo amigavelmente, mas não podem brincar com a gente", avisou "Nen Batatinha". A questão, acreditam os vereadores, poderia ser resolvida se houvesse diálogo do prefeito com a Câmara. Ao longo desse ano, pontuou Valter José Pimentel (PMDB), o "Valtinho da Sucata", Pedro Serafim teve quatro ou cinco encontros com os parlamentares.
Já convocado pelos parlamentares, o secretário de Governo, Raul Bradley, amenizou as críticas. "Não há rebelião na base. A Câmara está cumprindo seu papel e nós respeitamos. E a boa relação na política não implica em omissão", afirmou. De acordo com ele, houve equívoco ao se pensar, desde as eleições, que o fato de os vereadores apoiarem o prefeito significaria a ausência de críticas. Bradley justificou as poucas reuniões entre Pedro Serafim e a Câmara, ao longo deste ano, devido ao elevado número de compromissos do prefeito por conta dos projetos de Suape.
De olho nas próximas eleições
As críticas dos vereadores de Ipojuca não estão ligadas apenas ao presente. Há relação com as eleições de 2010 e 2012. Pelo menos dois itens pontuam os desencontros entre o Legislativo e o Executivo. O mais próximo seria a candidatura de Pedro Serafim Neto, filho do prefeito, a deputado estadual. Nos bastidores, aliados e opositores de Pedro Serafim afirmam que o gestor municipal, eleito no ano passado com cerca de 70% dos votos válidos, impôs a candidatura do filho sem ouvir as bases. E estaria dando superpoderes ao pré-candidato dentro da prefeitura.
"Já decidi que não vou apoiar Pedro Serafim Neto. Ele não é o único capaz de representar o município", adiantou Valter José Pimentel, o "Valtinho da Sucata", vice-presidente da Câmara. A exemplo do prefeito, Valter escolheu o filho, Gledson Pimentel, para representar o seu grupo político. Mesmo questionando o processo de escolha de Pedro Serafim Neto, a maior parte dos vereadores diz ainda não ser o momento de discutir o apoio a candidaturas para deputados estaduais e federais. "Falta maturidade política ao filho do prefeito para ir à Assembleia", disse em reserva um dos aliados de Pedro Serafim, que pediu para não ser identificado.
Além da possível candidatura de Pedro Serafim Neto, estariam em jogo os espaços para a disputa em 2012. Com o prefeito fora do páreo, por ter sido reeleito, e sem um nome forte na base governista, os aliados estariam se movimentando para ganhar visibilidade. Os seis vereadores que encabeçam as convocações, como "Nen Batatinha" e "Valtinho da Sucata", negam. Mas as convocações dos secretários têm chamado atenção. As sessões da Câmara costumam ser lotadas. "A iniciativa é boa e já deveria ter acontecido há tempo", comentou o aposentado Luiz Pimentel. Pelo menos nos últimos 20 anos, nenhuma convocação parecida ocorreu como agora.
Para o secretário de Governo, Raul Bradley, as queixas em relação a uma candidatura de Pedro Serafim Neto e o uso da máquina são infundadas. Ele admite, porém, a necessidade de um maior entrosamento entre o Executivo e o Legislativo, o que, segundo ele, já teria começado com as convocações. Bradley preferiu não comentar a corrida para suceder o atual prefeito. Dentro do governo, há um grupo que vê nos movimentos dos vereadores uma maneira de enfraquecer o prefeito e reduzir sua influência na escolha do candidato para 2012.
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