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  Notícia >> Moradores de engenho onde viveu Nabuco estão hoje ameaçados  (26/12/2009)
 
 
Moradores de engenho onde viveu Nabuco estão hoje ameaçados

Fonte: Cruzeiro On Line 26.12.2009

Foi aqui, nesta escada de três degraus, no alpendre da casa grande do Engenho Massangana, que um menino de oito anos, chamado Joaquim Nabuco, viveu um "quadro inesquecido", a "primeira impressão" de um sentimento que determinaria sua vida. Era 1857. Um negro fugitivo de 18 anos veio em sua direção, se jogou aos seus pés e implorou para que pedisse à madrinha, Ana Rosa Falcão de Carvalho, que o comprasse, livrando-o dos castigos de seu dono. Até aquele momento, escravidão era um fato natural na rotina do pequeno Quincas, filho de um senador do Império, e os negros eram serviçais gentis com quem partilhava as rezas na capela, onde murmuravam cânticos e pareciam formar - segundo a imagem que descreveria no livro "Minha Formação", muitos anos depois - uma pintura de Millet, um cenário de camponeses em paz com a natureza.

Nesse capítulo do livro, "Massangana", algumas das mais belas páginas da prosa brasileira, foi que Nabuco escreveu sua frase mais famosa: "A escravidão permanecerá por muito tempo como a característica nacional do Brasil." Confessando nostalgia daqueles tempos de infância e religiosidade, em que mamou leite dos seios das escravas e não da mãe, ele apontou como produtos dos séculos de opressão racial alguns traços brasileiros como a "alma infantil", o "silêncio sem concentração", as "alegrias sem causa". Também observou que tal suavidade seria exclusiva de algumas propriedades antigas do Norte e que não era mais possível, depois da abolição de 1888, pela qual lutou com todas as suas forças. Infelizmente, por intérpretes como Gilberto Freyre, essa suavidade foi vista como virtuosa, sem defeitos como a infantilidade e a desconcentração, e de alcance nacional e perene.

Nabuco, no entanto, não tinha desculpas para o atraso; ainda menino, lia e relia livros como "A Cabana do Pai Tomás", chorando, e sonhava combater a escravidão como sua maior missão. Na parede de um dos corredores da casa onde viveu sua infância, foi afixada outra frase sua, que diz que não se podem separar duas questões, "a da emancipação dos escravos e a da democratização do solo". Depois de deixar Massangana, aos oito anos, e ir para o Recife estudar, mais tarde cursando Direito em São Paulo, passando um período em Paris e enfim se estabelecendo como advogado e jornalista no Rio de Janeiro, Nabuco se dedicou a conhecer o assunto como ninguém. Aprendeu, por exemplo, que nos EUA o fim da escravidão foi seguido pela colonização de suas vastidões, com direito à posse de terras, e passou a defender o mesmo para o Brasil.

Cem anos depois de sua morte, em 17 de janeiro de 2010, uma visita ao Engenho Massangana, que se localiza no município de Cabo de Santo Agostinho, a 48 km da capital, e pertence à Fundação Joaquim Nabuco, revela que nem tudo mudou como queria que mudasse. Enquanto a casa grande e a capela são restauradas, para converter o local num centro cultural e turístico, a vila Massangana - à qual se chega atravessando o poluído riacho de mesmo nome e caminhando menos de cem metros pela mata - não sabe como será seu futuro. Nabuco, diante da mesma situação, ficaria sinceramente interessado na situação carente dessas pessoas que moram em suas antigas terras, então ocupadas pelos canaviais que descreve com saudades em sua autobiografia.

Com cerca de 3.500 habitantes, a vila foi se formando nas últimas décadas em torno do crescimento industrial da região, que fica na zona portuária conhecida como Suape, no litoral sul de Pernambuco (do engenho ao porto são apenas 2 km de distância). Na maioria os adultos são negros ou descendentes de negros e trabalham em serviços temporários na Refinaria Abreu e Lima - que pode ser vista no horizonte de quem está no mesmo alpendre, hoje sem coberta, onde Nabuco teve sua primeira impressão da dor dos escravos - ou então numa das outras 70 empresas já instaladas.

Na maioria, igualmente, os moradores não são donos dos terrenos, que fazem parte do complexo industrial ou então são de propriedade de algumas famílias tradicionais de latifundiários. Por isso mesmo, temem ser expulsos em breve. "Não sabemos onde isso vai parar", eis como define a situação do povoado Alexandre de Souza, 42 anos, que é administrador do Engenho Massangana, portanto funcionário da Fundaj. Casado, sem filhos, neto de um negro que trabalhou em engenhos de açúcar na região, Alexandre nasceu em Ipojuca e se mudou há cinco anos para a vila, onde mostra a casa de tijolos que está terminando de construir. Veio "em busca de tranquilidade", segundo ele mesmo; as duas cidades mais próximas são aquela onde nasceu, Ipojuca, com 40 mil habitantes, e a própria Cabo de Santo Agostinho, com cerca de 100 mil.

O polo naval do Suape foi criado no regime militar, mas vem crescendo rapidamente nos últimos anos, como se nota pela quantidade de obras ao redor, em especial da Petrobras. China e Holanda estão entre os países que planejam construir estaleiros no Suape. Num material informativo do próprio engenho, lê-se que a região conta atualmente com 44% dos investimentos estaduais, mais do que o destinado à Grande Recife. A menos de 30 km estão atrações turísticas como Porto de Galinhas, também em veloz crescimento, com pousadas, resorts e até ilhas sendo adquiridas por grupos espanhóis, portugueses e holandeses, o que tem multiplicado o valor das terras.
Alexandre e os outros habitantes contam que há rumores de que "pretendem tirar a vila daqui", para que se possam expandir as indústrias. Observa que já há uma estrutura urbana, ainda que precária. Os habitantes montaram uma associação de bairro, e a vila tem fornecimento de água - que, segundo eles, jamais falta, ao contrário do que ocorre em outras regiões de Pernambuco - e ônibus que chegam do centro de Cabo de Santo Agostinho a cada meia hora. Tem também três igrejas, evangélicas, e quatro restaurantes. Na rua principal, uma larga avenida de terra com lixo espalhado e uma praça tomada por capim e lama, fica também uma pequena escola. Nome: Escola Municipal Joaquim Nabuco.

O abolicionista, que sempre insistiu que a libertação dos escravos devia ser acompanhada de uma cruzada de alfabetização, gostaria de ver seu nome aqui, pintado em letras azuis sobre a parede branca. A escola foi criada há cerca de 20 anos, mas durante o primeiro decênio funcionou nas próprias salas do engenho. Depois foi instalada integralmente na vila, onde hoje estudam 289 alunos. É administrada por duas animadas gestoras, Loide Maria da Silva Aguiar e Maria José Ramos, que sucederam outra Maria, Maria Gonçalves da Silva, que também está ali cuidando dos enfeites natalinos, entre os períodos da manhã e da tarde. Embora forme apenas uma dúzia de alunos no nono ano do ensino fundamental, elas defendem o papel da escola naquela comunidade.
Loide, cuja mãe era merendeira da escola, estudou ali e depois foi fazer ensino médio no Cabo. Chegou a ter aulas no engenho e diz sentir falta da relação entre ele e a comunidade da vila. Conta também que a escola dá atenção especial à figura de Nabuco, "homem que viu tudo que o Brasil precisava". Ela também diz ter medo de que sejam expulsos dali. Como Alexandre, acha que haverá resistência caso isso aconteça e que será necessário "conversar muito", se for o caso de sair, mesmo que haja indenização. Sabe que pode até haver razões de saúde para tanto, já que a região se industrializa cada vez mais e a vila não está numa área de proteção ambiental. Mas diz que seria "muito ruim" ser transferida para longe e lembra que a vila não para de receber mais gente. E completa: "Para nós, agora, é ou sai ou cresce." (Daniel Piza - AE)
 
 








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