O outro lado do cartão-postal
Em Ipojuca-PE, aumento de verba ajudou vereadores, mas não os habitantes
Fonte: Correio Brasiliense de 1º de novembro de 2009
Dois momentos de Ipojuca (PE): beleza em Porto de Galinhas e pobreza cruel de moradores
A arrecadação de impostos em Ipojuca, município pernambucano que abriga cartões-postais como as praias de Porto de Galinhas e Serrambi, teve um salto nos últimos anos. Graças à implantação de grandes empreendimentos, como a Refinaria Abreu e Lima e o Estaleiro Atlântico Sul, que fazem parte do Complexo Industrial de Suape. O momento positivo na receita se traduz em benefícios para as autoridades locais, como os integrantes da Câmara Municipal. Mas contrasta com a realidade vivida pelos moradores da cidade. Apesar de ter o maior PIB (Produto Interno Bruto) per capita do estado, a cidade está em 44º no ranking do Índice de Desenvolvimento (IDH) entre os 184 municípios pernambucanos. A receita do município de 75 mil habitantes aumentou de R$ 236 milhões, em 2007, para pouco mais de R$ 340 milhões este ano. Com isso, a Câmara Municipal, que abriga 10 vereadores, passou a receber, em média, R$ 700 mil por ano. O dinheiro serve para pagar salários de R$ 4.800 aos legisladores. E ainda foi usado para fazer algumas melhorias que beneficiaram, até agora, apenas os próprios vereadores e funcionários da Casa: o prédio foi reformado, móveis novos foram comprados e há ainda o plano de construir uma nova sede. Com dinheiro sobrando, o presidente da câmara, Odimeres José da Silva, conhecido como Nen Batatinha, do PDT, avisa que, se for o caso, devolverá recursos aos cofres da prefeitura: “Quando acabar a minha gestão, a gente vai devolver os recursos que sobrarem”, jura. O dinheiro ganho pela cidade ainda não resolveu, porém, os graves problemas de desigualdade social do município. As praias paradisíacas convivem com palafitas encravadas nos mangues e os negócios milionários destoam da tradicional cultura da cana-de-açúcar. Quem frequenta Porto de Galinhas nos fins de semana e feriados talvez não imagine as condições de vida dos trabalhadores do turismo e do comércio, responsáveis por 10% da arrecadação municipal e por 90% dos empregos do município. Maria José da Silva, mulher de um vendedor de amendoim, divide uma palafita com o marido, os seis filhos e a neta no bairro de Salinas, um dos mais antigos de Porto. Tem água, luz, mas falta o saneamento. “Todos nós dependemos de biscate, a vida é dura. Quando chove, ficamos na lama e não temos dinheiro para conseguir uma casa melhor”, lamenta. “O que acontece é que o poder público não enfrenta os problemas do município”, critica Marcos Pereira, um dos integrantes do movimento Xô Corrupção, de Ipojuca. “As áreas urbanas afundam na superconcentração populacional, não há controle urbano, fiscalização, o transporte não foi regulamentado, para citar alguns dos problemas. É muito descaso do governo”, acusa. A reportagem tentou entrar em contato com o prefeito Pedro Serafim (PDT), mas não conseguiu. Na última quarta-feira, esteve na sede da prefeitura e na casa do prefeito. Foi recebida por duas secretárias, uma delas Dilma Lacerda, secretária particular, e recebeu a informação de que Pedro Serafim não se encontrava no município e nem estaria presente no dia seguinte. Na sexta-feira, não houve expediente por causa do feriado dos servidores públicos. Também tentou contato por telefone, deixou recados e não obteve retorno – nem mesmo da assessoria de imprensa da prefeitura.
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